Fósseis indicam que dinossauros quebravam ossos durante acasalamento

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Publicado em 18/01/26 às 08:10

Um estudo publicado na revista científica iScience sugere que o acasalamento entre algumas espécies de dinossauros era um processo extremamente violento, capaz de provocar fraturas ósseas graves. A pesquisa aponta que as evidências deixadas em fósseis indicam relações literalmente “de quebrar ossos”, desafiando visões mais idealizadas sobre o comportamento reprodutivo desses animais pré-históricos.

O trabalho se concentra no Olorotitan, um grande dinossauro herbívoro com bico de pato que viveu no período Cretáceo Superior, entre 66 milhões e 100 milhões de anos atrás. A espécie podia atingir cerca de oito metros de comprimento e pesar aproximadamente três toneladas. Ao examinar restos esqueléticos encontrados em diferentes sítios fossilíferos, paleontólogos identificaram um padrão recorrente de ossos quebrados e vértebras fraturadas, sobretudo na região da cauda.

Esses grandes herbívoros pertenciam ao grupo dos hadrossauros, conhecidos pelas mandíbulas potentes e pelos dentes adaptados à trituração de plantas. Também exibiam cristas chamativas na cabeça, estruturas que, segundo especialistas, funcionavam como ornamentos visuais usados para atrair parceiros durante o período reprodutivo.

Reprodução artística do Olorotitan / Imagem: Reprodução

Inicialmente, os cientistas consideraram que as fraturas poderiam ser consequência de disputas entre indivíduos ou do deslocamento em grandes bandos. Com o avanço das análises, no entanto, essa hipótese foi sendo descartada. As lesões apresentavam características semelhantes e apareciam em pontos específicos do esqueleto, sugerindo uma origem comum ligada ao comportamento reprodutivo.

Em 2019, o paleontólogo Filippo Bertozzo, do Instituto de Ciências Naturais de Bruxelas, visitou o Museu Paleontológico de Blagoveshchensk, na Rússia, para examinar fósseis da espécie. Foi ali que ele notou lesões incomuns nos ossos, conforme relatado pela National Geographic. “Quando percebi o que tinha diante de mim, dei um grito de alegria”, afirmou o pesquisador, autor principal do estudo.

Bertozzo já havia observado fraturas semelhantes em outros trabalhos e na literatura científica, especialmente vértebras quebradas próximas aos quadris de hadrossauros. A análise detalhada reforçou uma teoria que circulava entre os especialistas: os danos teriam sido causados durante o acasalamento, quando um animal montava o outro e exercia grande pressão sobre a região posterior do corpo.

Estrutura óssea do Olorotitan / Imagem: Reprodução

A forma como os dinossauros conseguiam se reproduzir sempre foi um enigma para a ciência. Segundo Bertozzo, não existem hoje animais com uma cauda comparável à dos hadrossauros — longa, musculosa e mantida elevada e quase horizontal em relação ao solo. Esses dinossauros possuíam apenas uma abertura reprodutiva, a cloaca, estrutura usada também para digestão e excreção, ainda presente em répteis atuais.

Para que a cópula fosse possível, macho e fêmea precisavam alinhar perfeitamente essas aberturas, o que exigia contato corporal intenso. Com as caudas rígidas e erguidas, o peso envolvido e a força aplicada tornavam o ato propenso a causar traumas severos em um ou em ambos os indivíduos. Apesar disso, os ossos apresentavam sinais de regeneração ao longo do tempo, indicando que muitos animais sobreviveram às lesões até a temporada seguinte de acasalamento. Estima-se que esses dinossauros vivessem entre 10 e 20 anos.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que a brutalidade do ato não excluía comportamentos elaborados de cortejo. De acordo com relatos reunidos pela National Geographic, os animais realizavam danças complexas para impressionar possíveis parceiros. Arranhões preservados em rochas antigas sugerem que eles se reuniam em verdadeiras arenas de exibição, raspando o solo em rituais coletivos — uma espécie de pista de dança pré-histórica, que antecedia um dos momentos mais arriscados de suas vidas.

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