Cientistas abrem um ovo de dinossauro de 70 milhões de anos e encontram algo inesperado
Por sandro
Publicado em 11/01/26 às 07:07
Um ovo de dinossauro com cerca de 70 milhões de anos, encontrado na Formação Chishan, no leste da China, revelou uma surpresa rara à ciência. Em vez de conter restos de embrião ou apenas sedimentos, o fóssil guardava no interior uma camada de cristais de calcita brilhantes, aderidos à parte interna da casca. A condição transformou o achado em um tipo de “geodo natural” de ovo de dinossauro, algo pouco comum no registro paleontológico, e permitiu a identificação de uma nova oospécie, além de ampliar o conhecimento sobre processos de fossilização e sobre o ambiente do fim do período Cretáceo na região.
O material, com tamanho aproximado ao de uma laranja grande, foi localizado na Bacia de Qianshan e chamou atenção dos pesquisadores logo nas primeiras análises. A casca estava preservada quase intacta, enquanto o interior apresentava uma mineralização incomum. Segundo os cientistas, esse tipo de preservação é raro porque combina a integridade estrutural do ovo com um processo químico que ocorreu muito tempo depois de ele ter sido enterrado.
Exames detalhados indicaram que os cristais de calcita não faziam parte da estrutura original do ovo. Eles se formaram após a decomposição completa do embrião, quando o interior ficou oco. Com o passar do tempo, a água subterrânea infiltrou-se pela casca por meio de microporos e pequenas fissuras, carregando minerais dissolvidos. Esses minerais se depositaram gradualmente no interior, até cristalizarem. O processo oferece pistas valiosas sobre as condições geoquímicas do solo e dos fluidos que circularam na região milhões de anos atrás.
A análise microscópica da casca levou à identificação de uma oospécie até então desconhecida, batizada de Shixingoolithus qianshanensis. A descrição foi publicada em 2022 em um artigo liderado pelo paleontólogo Qing He, da Anhui University. A classificação se baseou na organização microscópica da casca, considerada mais semelhante à de outros ovos de dinossauros do que à de ovos de répteis ou aves modernas. Esse critério foi decisivo para reconhecer o novo táxon, definido a partir das características do ovo, e não do esqueleto do animal.
Dois ovos foram identificados e classificados dentro do mesmo oogênero. Nenhum deles, porém, preservou embriões, o que impede a associação direta com uma espécie conhecida de dinossauro. Ainda assim, os pesquisadores destacam que o achado amplia o registro de dinossauros na Formação Chishan, tradicionalmente conhecida por fósseis de tartarugas, mamíferos e aves do Paleoceno.
A presença dos ovos sugere que dinossauros frequentavam a área ou a utilizavam como local de nidificação no final do Cretáceo, mesmo que restos ósseos ainda não tenham sido encontrados. Para os cientistas, isso reforça a importância paleontológica da formação e indica que a diversidade de animais que viveram ali pode ter sido maior do que se imaginava.
Além do valor para a classificação, os cristais de calcita oferecem novas possibilidades de estudo. Em pesquisas recentes, esse tipo de mineralização já foi usado para datar diretamente ovos de dinossauros, algo inédito até então, e para reconstruir características do ambiente químico do antigo ninho. As informações ajudam a compreender tanto os processos de fossilização quanto as condições ambientais do local após o enterramento do ovo.
O ovo transformado em geodo natural exemplifica como processos geológicos podem preservar, de maneira inesperada, registros da história da vida. Assim como ossos mineralizados ou fósseis substituídos por outros minerais, estruturas desse tipo funcionam como testemunhos duradouros de organismos extintos e dos ambientes que eles habitaram há dezenas de milhões de anos.